Então no passado os seres humanos eram nômades.
Até
que um grupo de seres humanos achou um rio. Eles descobriram que o rio
podia fazer uma parte do trabalho deles para eles, a de achar comida (no
caso, o rio sempre achava comida debaixo da terra que ficava ao redor
dele), enquanto eles precisavam apenas fazer a parte de andar até a
beira do rio e pegar esta comida (e comê-la, obviamente). O rio achava
comida em períodos regulares, sem tanta dependência do acaso. Antes, ao
andarem rumo ao desconhecido até achar comida eles mesmos, eram
completamente dependentes do acaso, o que de vez em quando acabava em
faltar ou sobrar comida. Por isso, os seres humanos não gostavam do
acaso, o que os
fez gostar muito dessa substituição de parte de seu trabalho pelo
trabalho do rio. Era, na verdade, uma relação de inquilinismo (+,0). Os
seres humanos se beneficiavam pois obtinham comida regularmente (+), e o
rio ficava indiferende pois esta comida ele obtinha no seu ir e vir
corriqueiro de "ano à ano" (pois o rio não conta seu tempo em dias para
que eu possa dizer dia à dia) sem se dar muita conta de que fazia isso,
uma vez que ele nem se quer se alimentava daquilo (0). Acabou,
inclusive, que por essa relação de inquinismo com o rio, os seres
humanos deixaram de ser nômades.
Esse trabalho em parceria com o rio deu aos seres humanos
um
pouco mais de tempo livre. A princípio eles usaram esse tempo livre
para ajudar o rio a achar comida para eles. Pois sentiram falta da parte
do trabalho deles de achar a comida, que agora era trabalho
involuntário e inconsciente do rio. É importante ressaltar que não houve
nenhuma evolução de espécie aqui, os seres humanos continuaram sendo Homo sapiens sapiens,
e portanto eles ainda sentiam a necessidade de usar seus instintos
naturais de trabalhar em achar comida, e não só trabalhar em andar até a
comida e pegá-la, como agora faziam ao participar do inquilinismo com o rio. Além de que o rio ainda não era tão bom em achar
comida quanto eles queriam (acabava por se equivocar e molhar demais a
comida na época do ano em que vinha, sufocando-a, e molhar de menos a comida na época do ano em que ia,
desidratando-a). Eles trabalharam nesse tempo livre para aperfeiçoar as habilidades do rio em achar comida
na medida do possível, até que já tinham aperfeiçoado tudo o que conseguiam naquela situação. Feito isso, eles precisaram então apenas trabalhar fiscalizar o rio e as melhoras que tinham feito. E aí, dessa
vez, eles ficaram com muito tempo livre, e aí ficaram entediados.
Começaram a sentir falta de outra necessidade homosapiniana que há um
tempo eles haviam esquecido: o espírito de nômade. Mas o desgosto pelo
acaso falava mais forte do que esse espírito de nômade, e isso fazia com
que eles não quizessem voltar a vida anterior se tivessem que abandonar
a certeza do futuro que o rio fornecia. Então, para resolver o problema
do tédio, eles pensaram: "nós podemos fazer isso de 'trabalhar junto com o rio' em
vários lugares, não só nessa parte do rio. Isso nos daria a necessidade de andar de um desses
lugares aos outros, como nômades." Porém, havia um empecílio para isso:
eles eram muito pequenos e o aperfeiçoamento do trabalho do rio que tinham feito
precisava da vigilância e ajuda constante deles, mesmo que sendo pouco trabalho e os deixando entediados. Então, como eles iriam
fiscalizar o rio e andar longas distâncias como nômades ao mesmo tempo?
Só se eles fossem maiores (para vigiar e ajudar todas as partes do rio) e pequeninos
(para andar longas distâncias) ao mesmo tempo. Então eles tivaram uma
ideia que os faria ficar maior e ser pequenos ao mesmo tempo. Essa ideia
não era a única e muito menos a melhor ideia para se conseguir isso,
mas era a única que era possível diante da infraestrutura que eles
tinham então. Essa era a ideia: que um dos homens fiscalizaria e organizaria
todos os trabalhos perto de cada parte do rio, se valendo de informações
vindas de outros homens, ajudantes, para isso. Os demais ajudariam o rio no trabalho e
andariam longas distâncias como nômades. Esse primeiro humano seria como
a cabeça de um ser humano, enquanto os outros seriam o corpo. Como se
todos juntos fossem um grande ser humano, mas fossem pequenos e
individuais ao mesmo tempo.
Acontece
que essa ideia privilegiava a parte do conjunto, e quase que esquecia a parte individual. E, claro, eles não era um ser humano só, eram vários.
Eles não podiam pensar como partes de um ser humano, sabem. O escolhido
para ser o cérebro não podia participar da atividade nômade de ficar
andando de um lado a outro e nem podia trabalhar em achar comida, pois tinha que ficar
em um só lugar para organizar todas as notícias que seus informantes o
traziam. E os outros, como corpo sem cérebro, não tinham mais consiência
do que faziam. O que eles deveriam ter feito para atingir equilíbrio
era que os escolhidos para ser o corpo deveriam saber tudo o que o
escolhido para ser o cérebro fazia e esse escolhido deveria mudar de
tempos em tempos. Assim, os do corpo se manteriam conscientes, e o do
cérebro teria sua chance de ser nômade e de achar comida com o rio. Mas,
já que eles não dispunham de meios para realizar tal correção no
momento, e já que estavam inconcientes de parte de sua estrutura, tiveram que fantasiar o que não podiam ter. O
"corpo" começou a especular o que podia acontecer com o "cérebro", para se criar uma precária conciência, e o "cérebro", a buscar formas alternativas de prazeres, na falta de satisfazer
suas necessidades serumânicas de nômade e trabalhador. De modo que
aquele começou a achar que este era um Deus, já que era ele quem
pensava, e este começou a fingir que também vivia as aventuras
nômades e trabalhistas, ouvindo um monte de histórias sobre eles e
desfrutando das colheitas da comida.
E aí estava o Egito.
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