Olá, leitores. Sejam bem-vindos ao blog. Quero me apresentar, mostrar de
onde vim e o que me trouxe aqui, para que vocês entendam um pouco do que vou
tentar fazer aqui no blog. Esse texto ficou um pouco grande, me desculpem. Mas,
não se preocupem: os demais textos serão menores, além da quantidade de vídeos
que haverá.
Até o meio do ano passado, eu estava fazendo intercambio na Noruega. Sim,
aquele paisinho lá no extremo norte quase saindo do planeta, cuja duração do
verão é de aproximadamente 1 mês, sendo o inverno de aproximadamente 6 meses, e
o resto é primavera e outono, que são um pouco menos frio que o inverno. Minha
mãe costumava a dizer que eu estava enterrada na neve, lá. (Além disso, a
Noruega também é aquele que o prof de geografia fala que tem o maior IDH do
mundo. Paradoxal, não? Tão frio, desconhecido e pequeno, e tão desenvolvido...)
O que sempre me perguntam: "E aí, como foi lá na Noruega, muito frio,
né?".
Mas a verdade é que o que menos reparei lá foi o frio. Estava mais
preocupada com o fato de, talvez por estar quase saindo do mundo, a
Noruega ser habitada por ET's. Ou pelo menos foi o que pensei nos 6
primeiros meses que estava lá, antes de finalmente compreender que aqueles
lorinhos de cabeças redondas também eram seres humanos. Porque eu achei que
eles eram ET's? Bem, eles são muito diferentes de nós. De personalidade
ainda mais do que de físico. Imaginem a minha surpresa em,
após mais de 4 meses na escola, ainda não ter amigos. A surpresa foi ainda maior a respeito da sinceridade dos noruegueses, sinceridade a ponto de me dizerem na cara o que não queriam que eu fizesse ou o que eles não gostavam. Também me surpreendi com a habilidade que eles tinham de falar e interagir o menos possível. (E, gente, não era porque eu sou uma chata e eles me evitavam, pois esses fatos também acontecerem com todos os outros intercambistas que estavam lá). Alguns exemplos das minhas surpresas: (Eu)"Você quer ir lá em casa assistir um filme um dia desses?", (Norueguês)"Não, eu não gosto muito de sair com os amigos". Que ser humano não gosta de sair com os amigos?? Outra: (Eu)"Você já viu o filme novo que está passando no cinema?", (Norueguês)"Sim", (Eu)"Sabe se é bom? estou pensando em ver..." (Norueguês)"Vou te mandar um link com a sinopse do filme para você ver se você gosta." Isso é antipatia ou o que?? . Mais uma: (Norueguês para mim)"Você é muito... -diz um defeito- Seria muito legal se você não fosse" E o mais estranho de todos: (Eu)"Olá, moça, estou perdida nesse shopping, você sabe onde fica a loja tal?", dez noruegueses brotam do shopping e se oferecem para irem me mostrar onde a loja é. Aí eu não entendia mais nada, como que, às vezes, eles eram tão antipáticos e não gostavam de gente, e outras horas eles eram tão gentis e solidários?
após mais de 4 meses na escola, ainda não ter amigos. A surpresa foi ainda maior a respeito da sinceridade dos noruegueses, sinceridade a ponto de me dizerem na cara o que não queriam que eu fizesse ou o que eles não gostavam. Também me surpreendi com a habilidade que eles tinham de falar e interagir o menos possível. (E, gente, não era porque eu sou uma chata e eles me evitavam, pois esses fatos também acontecerem com todos os outros intercambistas que estavam lá). Alguns exemplos das minhas surpresas: (Eu)"Você quer ir lá em casa assistir um filme um dia desses?", (Norueguês)"Não, eu não gosto muito de sair com os amigos". Que ser humano não gosta de sair com os amigos?? Outra: (Eu)"Você já viu o filme novo que está passando no cinema?", (Norueguês)"Sim", (Eu)"Sabe se é bom? estou pensando em ver..." (Norueguês)"Vou te mandar um link com a sinopse do filme para você ver se você gosta." Isso é antipatia ou o que?? . Mais uma: (Norueguês para mim)"Você é muito... -diz um defeito- Seria muito legal se você não fosse" E o mais estranho de todos: (Eu)"Olá, moça, estou perdida nesse shopping, você sabe onde fica a loja tal?", dez noruegueses brotam do shopping e se oferecem para irem me mostrar onde a loja é. Aí eu não entendia mais nada, como que, às vezes, eles eram tão antipáticos e não gostavam de gente, e outras horas eles eram tão gentis e solidários?
Só depois de muito tempo me acostumando com a lógica dos relacionamentos
deles é que fui entender. Eles não eram antipáticos. Eles simplesmente eram
práticos. Por isso, nunca falavam quando era desnecessário e faziam mais do que
falavam. E, às vezes, falavam até de menos. Isso porque eles, além de serem
práticos, também desprezavam a falsidade, e, como é muito difícil ser verdadeiro
o tempo todo, às vezes eles preferiam nem conversar a ter que ser falso.
Quando, por exemplo, nós os fazíamos uma pergunta direta a qual
eles não tinham jeito de evitar falar, pois tinham que responder, eles
falavam o que nós não queríamos ouvir, o que era um baque, mas que, depois, nos
ajudava muito a enxergar a realidade e melhorar como pessoa. Eles também não
discutiam, como os brasileiros gostam tanto de fazer. Não. Eles entendem que os
seres humanos são todos iguais e que, portanto, querem as mesmas coisas. Então
discussões são desnecessárias: ao invés de querer ir de encontro ao ponto de
vista do outro e falar para achar um jeito de argumentar contra o outro,
pode-se tentar entender o ponto de vista do outro, e já que eles sabem que os
seres humanos são todos iguais e querem as mesmas coisas, o outro deve ter algo
no ponto de vista dele que condiga com o seu, e eles podem chegar a uma
conclusão que satisfaça ambos. Só que entender um ao outro é algo muito
difícil, outro motivo para eles não conversarem muito, já que conversar sem
discutir exige toda essa compreensão. Esse era também o motivo para eles terem
um grupinho de amigos tão fechados (o que torna muito difícil fazer amizade com
eles): conviver com o mesmo grupo por tanto tempo torna a compreensão mais
fácil, e, consequentemente, mais fácil é eles se entenderem e cada um
satisfazer o outro no grupo.
Não foi fácil descobrir tudo o que mencionei sobre os noruegueses. Superar
os preconceitos para não só aceitar aquelas pessoas, mas também descobrir que
eram elas as pessoas que estavam certas no seu jeito de agir, e não os
brasileiros (com seu jeito aberto, acolhedor e... falso) é algo muito
difícil de fazer. Eu demorei muito tempo para entender isso. Foi um processo,
nada de um dia para o outro. Todos os dias eu ficava mais parecida com os
noruegueses, me tornei também sincera, mais entendedora do que argumentativa,
mais de fazer do que de falar. O que não aderia a eles era isso de falar
de menos. Gostava de, mesmo fazendo mais que falando, ainda sim comentar
enquanto fazia as coisas, enquanto eles só as faziam. Acho que isso é um ponto
positivo no povo brasileiro que eles não têm: o de não ter medo de falar (tudo
bem que a maioria dos brasileiros não têm medo de falar porque são
falsos e então só falam coisas não-importantes, enquanto os noruegueses têm medo
de falar porque são verdadeiros e a verdade pode machucar, mas seria bom se,
conciliando as duas culturas, eu conseguisse que eles não tivessem medo de
falar e continuassem sendo verdadeiros, independente de a
fala machucar ou não). Afinal, fazer as coisas é legal, mas conversar sobre
elas depois também. Nós, seres humanos em geral, noruegueses e brasileiros e o
resto do mundo, não somos perfeitos, e conversar, nos ajuda a refletir, que nos
ajuda a melhorar. Fazer isso falando as verdades na cara como eles faziam
ajudava ainda mais. E nem sempre a conversa tem que ser de "falar verdades
na cara": quando se conversa verdadeiramente sobre algo que se fez de
bom, conversar verdadeiramente não machuca nem é sacrifício. Em suma, eles
poderiam ter momentos ainda mais agradáveis se conversassem além de fazer
muitas coisas, e, às vezes, momentos desagradáveis, mas, uma vez que eles
sempre tentavam se entender e progredir, os desagrados podiam ser resolvidos, e
a vida deles só podia melhorar. Acho que tentei ajudá-los a não ter medo de
falar apesar de eles não quererem ser falsos ou não quererem gerar discussões.
Essa foi a minha pequena contribuição de brasileira a eles.
Essa foi a rotina da minha vida antes de voltar ao Brasil: aprender com os
noruegueses e fazer coisas boas junto com eles. E aí eu voltei pro Brasil. Imaginem
eu, já adepta aos valores noruegueses, de volta a essa zona aqui? Fiquei
perdidinha. Eis como os brasileiros, que pareciam tão humanos, acolhedores e de
bem com a vida antes da minha ida, me pareceram à minha volta: Tudo bem que os
brasileiros são bons em falar, mas eles o fazem querendo jogar a fala uns
contra os outros, querendo discutir, e querendo mostrar como cada um é especial
e diferente do outro, querendo reclamar sobre as vontades alheias, como se o
ser humano em si fosse uma desgraça. As únicas coisas nas quais os brasileiros
concordam uns com os outros são em reclamações: que político é corrupto, que o
transporte público é uma m(:x) e que a escola é muito chata. Olha que horror,
nós só concordamos em reclamações. Nós falamos demais, falamos reclamações
demais. Falamos tanto, que nem sobra tempo para resolvermos aquilo sobre
o qual reclamamos. Além disso, somos falsos: mentirinhas de dia a dia não são
nada, dar um jeitinho não é nada, afinal, todos somos diferentes uns dos
outros, às vezes é difícil conciliar o que cada um quer, o jeito é ignorar
algumas coisas ou mentir sobre elas para viver bem em conjunto, mesmo em
conjunto com aqueles meio chatos, mesmo com aqueles tão chatos a ponto de
querermos arduamente dizê-los algumas verdades. Mas, afinal, a verdade dói e
não se quer encará-la. Então melhor aturar calado. Ouviríamos mais reclamações
do chato se o disséssemos. É um ciclo vicioso de hipocrisia. Em suma: nossos
valores são opostos aos valores noruegueses. E, bem, vamos encarar os fatos: é
esse jeitinho norueguês, sincero, humildemente entendedor, amigo, que os faz
crescer e serem tão desenvolvidos. Enquanto nós, com o nosso jeito falso,
orgulhosamente debatedor, colega, que nos faz ficar estacionados e sermos tão
subdesenvolvidos.
Depois de tanto tempo num país de gente desenvolvida, você percebe o quais
são os valores que faltam na sua cultura que a faz não avançar. Aconteceu que
no pré-vestibular passado, percebi que a escola era horrível. E quis, como
tinha aprendido com os noruegueses, fazer algo a respeito, ao invés de ficar
apenas reclamando. Mas como fazer isso num país onde ninguém quer fazer nada,
só ficar reclamando e vivendo hipocritamente? Fiquei remoendo isso no meu
cérebro. É claro, pessoal, já que ser humano é ser humano em qualquer lugar do
mundo, entendo que vocês, jovens brasileiros, não querem ficar vivendo assim e
não fazer nada a respeito, como nenhum ser humano quer. Mas entendo também que
lhes falta força, agora, para isso, pois é muito difícil conseguir pensar em
alguma melhora de mundo quando a sua única preocupação é a ameaça inevitável e
horrível do vestibular. E já que é esse vestibular que, no caso, nos impede de
continuar na nossa situação hipócrita e preguiçosa demais para querer realizar
uma mudança, deixem-me dar uma palavrinha sobre essa prova...
O sistema escolar do Brasil não entende o que uma escola deveria ser, isso de
a escola ser um lugar para se descobrir coisas novas e de se fazer alguma coisa
que não seja ficar reclamando. Ao invés disso, a escola aqui não te ensina
realmente como descobrir as coisas, você apenas fica sentado ouvindo
explicações pela metade de matérias mal definidas, e isso não nos ajuda a
descobrir ou pensar ou inovar em nada, não nos ajuda a fazer ou realizar nada
na nossa vida. Pessoal, a escola deveria ser um lugar para se sonhar, e não
para se acabar com sonhos. A ideia de se ter matérias é se mostrar as coisas
mais leigais que o conhecimento humano já foi capaz de criar. E eu não sei
quanto a vocês, mas, para mim, as matérias são muito chatas e cansativas, ao
invés da melhor coisa já criada. Creio que elas se tornam chatas por causa do
modo que elas são contadas. As matérias são jogadas em cima de nós da forma
mais rápida e direcionada possível para uma prova ou vestibular. Elas não nos
são ensinadas de forma que nós possamos fazer algo com elas (como com
experimentos, com aplicações dessas matérias no dia a dia, com desafios...),
que seria a forma correta, pois só se fazendo as coisas é que se
aprende. Isso mesmo, gente, só se aprende fazendo, não importa o que
digam. E, na escola, decoramos a teoria, e o único que
"fazemos" com essa teoria são exercícios e a prova. E, bem, uma
novidade para vocês: exercícios e prova não são algo para se fazer.
Exercícios, prova, livros, filmes, não importa o que digam, essas coisas não
ensinam. Elas são como teorias disfarçadas de prática. E o que a teoria pode
fazer é te ajudar a organizar aquilo que você aprende fazendo e, assim,
te ajudar a aprender, nada mais. Então, o que a maioria dos países
desenvolvidos faz é deixar os alunos escolherem qual matéria faz mais sentido
para a vida do aluno, numa forma de se integrar a teoria à prática (a prática
seria o cotidiano e as coisas que o aluno faz da vida dele). Bem, já que somos
pré-vestibulandos e o não podemos escolher nossa matéria, o mínimo que podemos
fazer é tentar achar um aplicação de todas as matérias à nossa vida (às coisas
que gostamos de fazer). E, a propósito, nem isso os professores e o vestibular
faz (não me venham com o papo de Enem, essa prova não consegue fazer isso, apesar
de tentar... mas, como eu disse, prova não é algo para se fazer). Pois, afinal,
não há tempo para que os professores consigam fazer isso, coitados, muitos até
tentam, os bons, mas eles precisam dar a matéria de forma corrida e objetiva,
lembram? Então, ora, como se pensar em criar um ambiente construtivo, sonhador
e que te ajuda a entender sua vida, se não há tempo nem liberdade para isso?
Bem, como todos sabem que existem muitas matérias desnecessárias no vest,
não posso fazer o milagre de fazer de todas as matérias algo divertido. Mas, o
que tentarei fazer aqui no blog é resgatar aquela ideia de que as matérias
escolares foram criadas para se mostrar as coisas mais leigais que o
conhecimento humano já foi capaz de criar. Tentarei, também, recriar a
atmosfera de sonhos e ideias e sentimentos que as matérias deveriam causar na
gente. Talvez eu expresse até alguns sentimentos ruins, já que não é possível
ser totalmente feliz no pré-vest. E, a respeito de nós termos matérias demais
com as quais não temos afinidade, tentarei mostrar as matérias de um jeito que
seja como uma pessoa de exatas, por exemplo, poderia encarar a biologia e a
história como ajudante na sua vida individual. Tentarei reconhecer a aplicação
de uma matéria a pessoa de uma área que não usa muito a tal matéria (por
exemplo, médicos que usariam o português para se comunicar melhor com o
paciente, engenheiro que usa a literatura para ver graça nos engenhos que
produz, e podê-los fazer de uma maneira mais humana e divertida).
Em suma, vou tentar resgatar o óbvio. É óbvio que devemos fazer mais que
reclamar, como os noruegueses me ensinaram. Mas os brasileiros parecem que se
esquecem do óbvio o tempo todo. Como se lembrar com esse mundo louco que é o
Brasil? A loucura não reconhece o óbvio. Mas podemos ser sãos nesse país louco,
se nós nos lembrarmos que o que podemos fazer sobre as matérias do vestibular,
e não apenas reclamar dele.
Nenhum comentário:
Postar um comentário